sábado, 8 de janeiro de 2011

1° Capitulo: Palhaços também amam ‘


Nasceu o dia, são exatamente 6:15hrs da manha e mais uma vez eu lembro que ninguém liga pra mim. Eu me chamo João Batista, sou palhaço de um circo chamado “ Circo Tenório “. Hoje tem espetáculo, mais um espetáculo iguais a todos os outros que fiz, desde os doze anos de idade, eu sorria muito mais do que hoje, as coisas eram muitos mais simples, eu ainda estava aprendendo a sentir o amor, a aprendendo a amar. Os meus horários sempre diferentes de todos os outros dias, nunca virava uma rotina, e sempre tinha motivos para sorrir, motivos para fazer outra pessoa sorrir.
Para cada espetáculo eu tinha uma maquiagem diferente, um rosto diferente, uma alegria diferente, motivos variados para fazer muita gente sorrir. Quando olhava para a platéia e via todos a aplaudir de pé, minhas palhaçadas sem noção, o sorriso das crianças onde eu sempre vejo verdade, era uma alegria tão grande, que eu não queria mais que o espetáculo terminasse, queria que fosse interminável.
Os anos se passaram, o circo faria mais uma viagem, iríamos para uma cidadezinha chamada Jerimun. Lá, eu pensava que iria ser mais um espetáculo como todos os outros, mais não, algo mexeu comigo.
Enquanto eu fazia meu numero e todos davam risada, eu vi que tinha alguém diferente entre todas aquelas pessoas. Era uma garota linda, loira, cabelo liso, olhos azuis e os lábios mais lindos que já vi em minha vida, eu tentava fazê-la sorrir, usei todas as minhas palhaçadas, minhas manhas mais nada adiantava, ela era dura na queda.
O espetáculo estava acabando, todos indo embora, mais ela queria ficar até o final. Assim que acabou tudo, ela ia saindo mais eu não consegui me segurar, e fui logo perguntar:

Ele - Qual seu nome menina bonita?
Ela – Meu nome? Pra que cê quer saber?
Ele – Por nada! Apenas queria saber se essa perfeição era toda por completa, nada mais
Ela – Hum! Meu nome! Você quem vai dizer, o que você ver em mim ?
Ele – Apenas uma beleza cercada de mistérios, uma beleza que nunca se cansa de ser apreciada.
Ela – Hum! Mais então, conseguiu encontrar um nome que caberia a essa tal perfeição, que você diz em mim ?
Ele – Hum, vamos ver...
Ela - ...
Ele – Te chamaria de lua.
Ela – Por que lua ?
Ele – por que se te chamasse de flor, não seria legal, como posso não te ver mais, não te regaria e você morreria. Se te chamasse de beija-flor, você voaria pra longe e eu nunca mais te acharia. Te chamo de lua, por que teria a certeza que você estaria toda noite em meu quintal.
Ela – Você esta apaixonado por mim?
Ele – Eu? É, posso até estar! Mais eu diria que, o que eu sinto ainda não tem nome, é um sentimento raro, sem descrição, não existe no dicionário, não tem explicação.
Ela – Eu poderia te chamar de louco, sem noção!
Ele – Louco por gostar de você?
Ela – Não! Quer saber? Esquece.
Ele – você esta com raiva de mim?
Ela – e por que estaria?
Ele – Ah, sei lá! Você ainda é um mistério, até agora eu não sei seu nome.
Ela – Prazer lua!
Ele – Ué, lua ?
Ela – é lua! Se eu fosse flor você não me regaria. Se eu fosse um beija flor eu voaria para longe e você não me acharia. Sou lua, por que sei que vou te ver toda noite.
Ele – então você gosta de mim?
Ela – ( Risos )! Você gosta de ser palhaço né?
Ele – Na verdade eu amo ser palhaço, eu amo o circo. 
Ela – E por que esta com essa cara triste?
Ele – é por que ninguém liga pra mim!
Ela – e seus amigos do circo?
Ele – meus amigos? Meus amigos são legais, mas pela primeira vez eu sinto que eles se afastaram de mim, meus dias nunca tinham rotina, agora tem, eu não troco mais minha maquiagem de palhaço. Sinto que, de uns tempos pra cá, os espetáculos não são os mesmo de antes, alegres, com vida. Hoje o espetáculo pra mim é quase que uma obrigação.
Ela – Mas você é um palhaço, deveria estar feliz!
Ele – É eu sei, mais assim que eu entro no camarim e tiro a maquiagem, eu não sou mais o mesmo, é como se eu fingisse estar feliz, é como se outra pessoa entrasse em mim e fizesse o espetáculo inteiro! Depois que tudo acaba eu me sinto praticamente só e me ponho a chorar diante do espelho, tirando a pintura do rosto que demorou muito tempo pra ser feita. As pessoas acham que nós palhaços, só sabemos ser “palhaços”, mais nós também amamos, também sentimos tristezas, mesmo em meio a tantas palhaçadas.
Ela – Nossa! É muita tristeza para um palhaço só! Você não pode deixar essa arte te deixar assim, o circo é tua vida, além de sustento é teu sonho.
Ele – E você, tem um sonho?
Ela – Eu não tenho sonhos!
Ele – Como assim não tem sonhos?! Você não tem uma meta para sua vida?
Ela – Ter uma meta até que eu tenho! Ter dinheiro o suficiente para fazer o que eu quero. Sonhos já bastam vocês, que a cada peça que apresentam, colocam mais sonhos, fantasias na cabeça das pessoas, que saem daqui achando que o mundo é belo e que os problemas não existem.
Ele – Você fala demais! Talvez se falasse menos, e observasse mais, veria que nada que você falou tem sentido. Nós não queremos mudar a cabeça das pessoas, só queremos tirar um sorriso de cada pessoa que vem nos assistir, que vem conhecer o nosso mundo belo e mágico.
Ela – Bom cada um com sua opinião, com seu jeito de viver. Vamos parar por aqui né?! A gente mal se conhece e já estamos discutindo assim (Risos).
Ele – Mais você já vai?
Ela – É já vou! A gente conversou um tempão aqui.
Ele – se dependesse de mim, ficaria com você até o sol nascer! Se eu pudesse ficaria te apreciando por um bom longo tempo! Onde você mora?
Ela – Moro por aí! Moro em cada esquina, em cada amanhecer, em cada anoitecer! Gostei de você palhaço sem noção, que além de sem noção, sei que aí por dentro bate uma paixão.
Ele – É, todo mundo diz isso.
Ela – Mais você realmente não é apaixonado pelo circo?
Ele – Sou, ou melhor, estou mesmo apaixonado, mas é por você, loira sem noção.
Ela – Por mim? Hum, não sei se daria certo, se vale à pena!
Ele – Eu faço valer a pena! Por você sou capaz de criar uma apresentação em sua homenagem, faria os poemas mais lindos, faria canções, faria se pudesse com seu nome.
Ela – Palhaço, você nem me conhece e já me deu nome, já prometeu essas coisas todas e mesmo assim me conquistou com teu jeito palhaço de ser.
Ele – Então você gosta de mim?
Ela – Sim, gosto! E antes que você me pergunte gosto muito.
Depois que ela me disse aquilo, parece que eu tinha voltado no tempo e sentia a mesma felicidade de quando eu fiz meu primeiro espetáculo. Ela reacendeu a vela que tinha se apagado há muito tempo atrás, e enfim, me fez sorrir de novo, me fez perceber também, que não é só os palhaços que fazem sorrir, o amor em si, vem com todo recheio, vem completo e veio pra me fazer feliz. Hoje eu posso dizer que sou um homem mais feliz realmente, sem dúvidas, e pode escrever, vou casar com ela e ter um monte de loirinhos.

  
Livro: MEU RELATO (desconhecido)