" Morrer é voltar para casa, enquanto Nascer é vir expor-se aos desafios do amadurecimento espiritual, confrontando nossa verdade. "
by: Zíbia Gasparetto
Estava em casa assistindo televisão. Era noite. De repente, senti uma angústia muito grande. Parecia que alguma desgraça estava prestes a me acontecer. O medo tomou conta dos meus sentidos. "Isso não é meu !", pensei, tentando me acalmar. Desliguei a TV e elevei o pensamento. Pedi ajuda aos meus amigos espirituais, certa de que estava sendo visitada por algum espírito sofredor.
Aos poucos, consegui recuperar a calma. Foi então que vi o espírito de um jovem encolhido em um canto da sala, torcendo as mãos, desesperado. Procurei envolvê-lo com energias de paz. Percebendo que eu o tinha notado, ele se aproximou. "Preciso de ajuda", disse, nervoso. "Eu fugi e vim me esconder aqui. Por favor, não deixe que eles me vejam !", pediu.
Sugeri que se acalmasse. Expliquei que estávamos sozinhos, que não havia ninguém ali. O jovem olhou em volta e suspirou aliviado. "Ainda bem... Desta vez acho que escapei". Perguntei do que ele tinha medo. "Eu explico: faz 30 anos que desencarnei. Na Terra, vivi uma vida cheia de altos e baixos, me envolvi em várias situações complicadas e voltei ao astral muito perturbado. Com a ajuda de amigos dedicados, consegui me equilibrar, rever algumas atitudes, fiquei muito bem. Contudo, nos últimos tempos comecei a me sentir entediado, triste, desmotivado."
Vendo que eu o ouvia com atenção, continuou: "Procurei meu mestre espiritual e ele me informou que eu estava com sintomas que antecedem a reencarnação. Fiquei surpreso, mas concordei. Embora minha última vida não tenha sido um sucesso, agora eu me sentia muito melhor - o que me permitia ser otimista. Desta vez, sairia vencedor. Iniciei os preparativos naturais a fim de facilitar o processo".
Eu ouvia em silêncio, atenta às suas palavras - que soavam em minha cabeça de maneira clara, fazendo-me perceber o tom emocionado com o qual falava. Ele prosseguiu: "Despedi-me dos amigos. Mas, quando chegou a hora em que eu deveria entregar-me ao processo, comecei a sentir um medo terrível. Eu ia mergulhar no escuro, perder a consciência, ingressar na intimidade de pessoas desconhecidas que iriam durante anos decidir sobre minha vida. Essa dependência obrigatória me apavorou. Os pais nunca sabem o que os filhos precisam, desconhecem nossas reais necessidades. Então, recusei-me a consumar o ato. Fui informado de que os laços estavam prontos e não era mais possível voltar atrás. Foi quando fugi e vim refugiar-me aqui. Não esperava que você pudesse me ver !"
Tentei convencê-lo a aceitar a programação da vida. Afinal, ela sempre faz tudo para o melhor. Lembrei-lhe dos momentos em que recebera sustentação e apoio, destacando que o esquecimento temporário do passado é um alívio e uma trégua abençoada que abre espaço a novas descobertas do nosso potencial como espírito.
Não sei quanto nos demoramos nessa conversa, mas ele foi recuperando a calma. Por fim, disse: "Você tem razão. Não dá mais para voltar atrás. Melhor aceitar meu destino e confiar na vida". Então, vi uma luz muito clara envolvê-lo em espiral. Eu o ouvi dizer "obrigado, até um dia !" e desaparecer. Comovida, rezei, fazendo votos para que tivesse sucesso. As pessoas têm medo da morte, mas os espíritos me mostraram que o medo de nascer é muito maior. Pois morrer é voltar para casa, enquanto nascer é vir expor-se aos desafios do amadurecimento espiritual, confrontando nossa verdade e nossos pontos fracos.