domingo, 21 de fevereiro de 2010

sobre a Confiança






por: FRANCO, Silmara


A Mulher das Cocadas
(ou: sobre a Confiança)
Responda rápido: a campainha toca, você atende, uma mulher que você nunca viu lhe oferece cocadas. Você compra?
Em dois mil e nove: nunca.
Em mil novecentos e setenta e pouco: se a iguaria parecesse boa, sim.
Foi assim que na Mooca dos imigrantes italianos, numa pequena vila com quatro casas, a mulher das cocadas ganhou sua freguesa-mirim. Que se lembraria dela até hoje, embora não soubesse seu nome, muito menos de onde vinha.
Mas sabia que vinha. Geralmente uma vez por mês, a mulher aparecia com seus doces. Uma senhora negra, arredondada, de bochechas sorridentes. Gentil. Quarenta e poucos anos, no máximo. Fazedora da cocada mais gostosa que já comi em toda minha vida. Cremosa, açúcar na medida certa – nem a mais, nem a menos. Flocos de coco num mar de leite condensado. Firmes e bem modeladas. Vá lá, há certa dose de nostalgia nisso tudo. Talvez fosse uma cocada comum. Mas o sabor dela e a imagem da mulher ficaram guardados na memória da menina de seis anos, naquele compartimento que costuma aumentar tudo: os sentimentos e as sensações das coisas boas e das ruins. E quando tem açúcar na parada, a lembrança fica cristalizada, eterna.
Na primeira vez minha mãe comprou só algumas. Para experimentar, explicou. A mulher prometeu voltar para saber se havíamos gostado. Nas próximas vezes, os pedidos aumentaram. Até que um dia não houve mais pedido. A mulher desaparecera. Ficamos órfãos da cocada.
A cocada branca da mulher negra ficou para trás. E o tempo trouxe outra dúvida: o que foi feito da confiança, esse sentimento que, ao lado da generosidade e da gentileza, movem a humanidade? Minha mãe olhou nos olhos da mulher, e a opinião saiu na hora. Ela não prestou muita atenção na maldade e no perigo que poderiam estar escondidos, disfarçados na forma de uma senhora bondosa e risonha. E deu certo.
Hoje só compramos alimentos que tenham nome, sobrenome, endereço, informação nutricional e prazo de validade. Sabe-se lá como é que a mulher fazia suas cocadas? Não importava, essa era a verdade. A cara dela era boa. A da cocada, melhor ainda. Pronto.
As relações pareciam mais simples, antigamente. Binárias: sim ou não. Longe do meio-termo medroso e cheio de dúvidas traduzido no "talvez", "depende", "mas e se" de agora. Sim, a nostalgia é uma forma de homenagem ao passado.
Mas confiança não deveria ser coisa do passado. Me diz: como é que a gente resolve essa parada?



A Mulher dos Travesseiros

(ainda sobre a Confiança)

A esperança e sua prima, a confiança, tentam, todos os dias e de várias formas, nos mostrar coisas que precisamos ver. Elas são boas nisso. Nós é que fingimos não ver. Estamos ocupados demais.
Quando eu era criança, a mulher das cocadas apareceu na minha vida. Só mais tarde – algumas décadas depois – eu entenderia a lição. Agora é a vez da mulher dos travesseiros me mostrar coisas sobre a confiança, mesmo tema da mulher do passado. Embora na lição do presente a protagonista tenha sido justamente a falta dela.
Ontem fui ao shopping center. Visitar a gata de minha irmã, internada na clínica veterinária que existe lá. Gatos gostam de visitas. De volta ao estacionamento, uma mulher em um carro parou ao lado do meu e me chamou. Condicionada no medo urbano das ameaças visíveis e invisíveis, tive certeza: assalto. Ou, na melhor das hipóteses, estaria prestes a cair em um golpe. Tentei me lembrar dos avisos recebidos por email sobre as novas táticas dos bandidos, quem sabe eu não descobriria tudo de imediato e me livraria? (Shoppings são microuniversos. Tudo que acontece nas cidades se reproduz ali dentro. O que, às vezes, não é uma boa notícia.)
A mulher desculpou-se pela abordagem e começou uma história lamuriante. Estava sem um centavo e sem combustível para voltar para casa. Paralisada, eu não sabia se entrava correndo no carro, se lhe dava ouvidos, ou se gritava pelo rapaz da segurança que passava ali perto. Inconscientemente, escolhi ouvi-la. Como quem aguardasse a "ação", olhei em volta para saber de onde viriam os meus algozes. Ou a que horas seria anunciado o golpe.
Fico sabendo que a mulher mora em Americana, cidade vizinha de Campinas. Embora eu tenha achado sua história meio estranha – como se todos no planeta tivessem talão de cheques e cartão de crédito –, continuei a ouvi-la. Ela contou ainda, claramente envergonhada e constrangida, que vendia travesseiros e me ofereceu um em troca de ajuda.
Foi quando o medo, num súbito, se instalou. Cortei a conversa: não poderia ajudá-la. Entrei em meu carro, travei as portas e saí. Quando avistei a mulher indo em direção à saída do shopping, percebi: não havia assalto nem golpe algum. Pus-me em seu lugar. A que ponto chegamos, meu Deus.
Tive pressa: será que haveria tempo de consertar a injusta desconfiança? Abri a bolsa, apanhei a carteira, conferi quanto havia ali. Segui a mulher. Buzinei, ela não me ouviu. Ela saiu do shopping, continuei a segui-la. Consegui alcançá-la, abri o vidro, fiz sinal e pedi que ela parasse. Ela me reconheceu. Perguntei: "Quinze reais ajudam?". Ela abriu um sorriso, como quem estivesse na iminência de ganhar mil vezes aquilo. (O valor dado ao dinheiro depende do que vamos fazer com ele. E é proporcional ao quanto precisamos dele.)
Acabei ganhando um bonito travesseiro. Estampado com borboletas, num claro sinal de que a vida se renova e as primas – esperança e confiança – jamais desistirão de nós. Dormirei com ele hoje. Quem sabe não é um travesseiro mágico, que transforma em realidade os sonhos sonhados sobre ele? Além dele, e mais importante, levei para casa um dos agradecimentos mais sinceros de toda minha vida. E, assim como a mulher das cocadas, provavelmente não verei mais a mulher dos travesseiros. (Por que será que essas pessoas aparecem e desaparecem?)
Poderia ter sido um assalto, um golpe? Sim, poderia. Afinal, quantas pessoas não caem, todo santo dia, nas armadilhas?
Ainda não sei responder à minha própria pergunta lá no finalzinho da história das cocadas. Mas é preciso acreditar que é possível, sim, resolver a parada sobre a pós-moderna falta de confiança entre as pessoas. Ouvir mais o coração ajuda. Ele sabe o que diz. Nós é que não entendemos mais sua língua. Hora de reaprender a conversar com ele.